"... uma manhã transparente que hesita e flutua como um ser delicado, envolta em neblinas (...) Há nas coisas uma hesitação, uma mescla, um abrir, como no princípio do mundo quando a água, a luz e a terra não estavam ainda separadas pela mão de Deus."
Raul Brandão, " As ilhas desconhecidas"
Há pouco mais de cem anos o escritor Raul Brandão embarcou rumo aos Açores, numa viagem que duraria dois meses e que daria origem a um impressionante diário sobre estas ilhas.
Hoje, e aproveitando o ano em que Ponta Delgada, na Ilha de São Miguel nos Açores, é a Capital Portuguesa da Cultura, fazemos como o escritor e vamos à descoberta de obras de artistas açorianos editados pelo CPS, provando que a insularidade não traz só obstáculos, sendo até talvez a força motriz e inspiração para a criação.
JOSÉ NUNO DA CÂMARA PEREIRA
Santa Maria (1937-2018)
José Nuno da Câmara Pereira, S/ Título, Serigrafia
Animava-o o questionamento sobre a natureza do mundo. Em terra continental trabalhou a instabilidade da matéria, onde a pintura nascia e morria e onde líquidos se transformavam em fumo e fogo. De regresso às ilhas, procurou a permanência, a assumida presença dos corpos.
CARLOS CARREIRO
S. Miguel (n.1946)
Carlos Carreiro, S/ Título, Serigrafia
Reutiliza técnicas ilustrativas que nos surpreendem pelas mudanças de escala, assim como pela animada relação entre elementos da História e de estórias. Os diferentes componentes arquitetónicos e personagens, remetem para a cultura açoriana.
MARIA TOMÁS
Santa Maria (n.1951)
Maria Tomás, S/ Título, Gravura
O trabalho da artista reparte-se entre a pintura e a gravura. Pauta-se pela oscilação entre o uno e a repetição, o elemento e o todo. Tem vindo a retomar "o retábulo" - a parte que faz parte do todo, mas vive por si - iniciando-se no minimal, mas que se estende à exaltação do barroco.
PAULO DAMIÃO
S. Miguel (n.1975)
Paulo Damião, S/ Título, Gravura
O amor, a vida, a morte e as emoções, expressas pelo artista através de um universo particularmente sensível. A escuridão e, simultaneamente, a clareza dos rostos, indicam-nos a sua inegável existência e fragilidade.
GABRIEL GARCIA
Pico (n.1977)
Gabriel Garcia, "O meu Império fica num país distante II", Gravura
Autor de figuração narrativa, as suas estórias fantásticas e grotescas são contemporâneas fábulas que registam o encanto e desencanto do quotidiano. Nos últimos anos, o seu trabalho evoluiu para um estilo mais sóbrio e depurado, próximo da melancolia e secretismo.
PANTÓNIO
Terceira (n.1975)
Pantónio, "Os ambiciosos", Serigrafia
Os seus trabalhos mantêm-se numa economia de cor, centrada numa base escura vulcânica, com fundos de luz fraturante desenhada com linhas de água. Segundo uma técnica que esculpe as formas a preto até chegar à luminosidade e volumetria.
Apaixonadas pelas ilhas
Sara Yan (Lisboa, 1982), reside na Ilha do Pico.
Sara Maia (Lisboa, 1974), reside na Ilha das Flores.
No trabalho de Sara Chang Yan, o desenho é um guia de pesquisa, uma procura mediada por conceitos abstratos como “Deus” ou emoções como “ternura” que emergem da artista.
Pela vertente narrativa e o olhar cáustico da pintura de Sara Maia, os dramas da nossa sociedade são retratados. Desmistifica a moral tradicional, usando a ironia e uma forte paleta.